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Eu sou o Jota!
Sempre tive dificuldade em responder a pergunta “quem é você” do Orkut.
Para quem não é dessa época, talvez não entenda o meu frio na barriga para tentar responder essa pergunta “simples” de uma rede social que, para muitos, era a principal diversão nos anos 2000.
Pois bem. Anos depois, sigo aqui. Incógnito. Cheio de quereres como canta Caetano e de afazeres, tal qual todo brasileiro que não nasceu herdeiro.
O fato é que me lembro de ser desde muito cedo uma criança curiosa. Que aprendeu bordado só de observar a mãe bordando e que numa certa ocasião se pintou completamente de azul (com direito a roupa, cabelo, pele… tudo mesmo) para contribuir com a vitória da sua turma na gincana da escola.
Filho de pais baianos que viajaram ao Espírito Santo para um tratamento de saúde que acabou resultando em uma gravidez inesperada.
Gosto de acreditar que “não vim nesse mundo a passeio” porque minha mãe, sempre que conta nossa história, faz questão de dizer que descobriu a gravidez em meio ao tratamento com medicações fortes e que o próprio médico a advertiu de que as chances de que acontecesse um aborto espontâneo ou de que eu nascesse com “problemas” era grande.
A primeira vez que ouvi isso, poetizei e me assegurei de confirmar a suspeita clínica: nasci com o problema de enxergar o mundo de um jeito diferente das demais pessoas… com o poder de enxergar o invisível do cotidiano.
Desde muito cedo, crescendo na periferia de uma capital do Brasil, tive o privilégio de crescer rodeado por pessoas amáveis, cuidadosas e esperançosas. Meus pais, por desespero ou fé, me criaram sob a premissa de que eu não podia dar errado.
Depositaram em mim o que tinham e tudo que lhes faltava.
Pois bem. Sobrevivente do ensino médio, de um curso técnico de gestão e em meio a um outro de artes cênicas, saindo do meu estágio em uma clínica de psicologia, fui convidado para trabalhar em um lugar onde fui voluntário.
Partindo do sonho de transformar o mundo, dedicando verdadeiramente dias e noites a algo maior do que olhar para o próprio umbigo, fui levado para minha primeira viagem internacional: a Rússia, na Primeira Conferência Ministerial Global.
Eu que mal conhecia minha cidade, indo cruzar o oceano para entrar na sede da ONU em Moscou e em uma conferência de tal porte pela porta da frente, quase com tapete vermelho…
De lá pra cá, muitas águas rolaram. Criei uma empresa, alguns projetos paralelos, conheci gente que vive como se fosse o último dia. Me construí pessoalmente e profissionalmente da mesma forma que vim ao mundo: me arriscando entre o tudo e o nada, caminhando de forma torta e certeira.
Com tortuosidade porque a vida precisa de uns balanços para tirar a poeira, mas também com a retidão de quem sabe que conquistar lugares diferentes daqueles desenhados para quem nasce pobre, preto e favelado não é um mar de rosas, mas que é possível e preciso criar novos caminhos.
Entre um avião e outro, um trem e um navio, lá se foram mais de 30 países para a conta.
Aqui, talvez eu me permita admitir uma certa compulsão neurótica por desbravar o mundo. Sobre sentar em um café em um dia da semana e confabular muitas realidades imaginárias acerca da vida daquelas pessoas.
Relendo os parágrafos acima, fico feliz em ter chegado a essa altura do texto sem ter começado pelo cargo que ocupo ou pelo curso A ou B que tenha feito. Ainda que eles componham minha história, estão longe de responder à pergunta do Orkut de “quem eu sou” – “Deus me livre e guarde” (como dizem as sábias senhoras de onde eu venho) me resumir a um emprego ou um diploma. Reduzir-se a uma caixinha criada por alguém é perder partes cruciais e únicas de uma vida.
Prefiro ser alguém que ama com o amor emprestado de meus pais, do meu irmãozinho que corria todos os dias quando me via chegando em casa. Dos meus amigos que, apesar de poucos, são quase sempre fiéis aos nossos cuidados mútuos.
Como alguém que tem aversão à injustiça, mas que abraça as aventuras errantes que já passou. Que reconhece o aprendizado no viver, que já cometeu injustiças. Que percebeu cedo e pediu desculpas, ou tarde e teve que aprender a seguir em frente com o peso do que não se pode consertar.
Por fim, a razão de existir desse espaço é para que pessoas que, assim como eu, amam a literatura do cotidiano e buscam o autoconhecimento por meio de músicas, textos, fotos, vídeos, viagens, conversas, me encontrem e, talvez, por consequência se encontrem.
Ainda que vez ou outra alguém apareça me pedindo um conselho, uma palestra, uma consultoria ou dizendo que tenho muito a dizer ao mundo, uma parte de mim ainda duvida se tenho mesmo algo de valioso para compartilhar. O que me salva disso é enxergar o caminho percorrido até aqui, as histórias escritas, os aventuras vividas e por ser um grato multiplicador daquilo que colhi e absorvi com pessoas e lugares por onde estive. Ou talvez pelo amor que sinto e que precisa ser compartilhado em tudo o que faço.
Outro dia, quase esqueci disso, trabalhando, correndo de um lado pro outro, transformando momentos mágicos em obrigação.
Hoje, ao escrever tudo isso aqui, desse jeito, me sinto de volta. De mãos dadas com o moleque que se pintou de azul e com o que seguiu enxergando cores no mundo. Independente do quanto as coisas ao redor o tentassem acinzentar.
Existir nesse sistema que nos dá o valor e a dimensão daquilo que produzimos, sem atribuir na maior parte do tempo crédito à riqueza que geramos, exige que tenhamos armas anti enlouquecimento e invisibilidade.
Espero que desfrute de algo que compartilho aqui e se de alguma forma compactuamos de algo em comum, me deixe saber!
Amo bilhetinhos sinceros, conversas difíceis, “gastar tempo com coisas desimportantes” e de pequenas grandes revoluções pragmáticas e afetivas.
Há uma revolução constante em meu peito, em minhas veias, em minhas origens, em minha pele.
Digo isso porque anos depois, vivendo neste corpo, percebo claramente a repulsa anticonformista surgindo em mim todas as vezes que os dias se tornam vazios de significado – ainda que cheios de significantes (dinheiro, sucesso) e seus efeitos colaterais (bajuladores, homens de plástico, gente morta em vida).
E essa será sempre minha bússola. Que ela esteja sempre calibrada.
Deixa eu te mandar umas coisas?
Se algo te trouxe aqui, talvez você queira receber os próximos conteúdos =)
